quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Rio Doce: Uma Agonia

Os danos ambientais causados pela passagem da enxurrada de lama, provocada pelo rompimento de barragens da Samarco em Mariana, foram drásticos, e a restauração total é tida como impossível

Beatriz Missagia, membro de pesquisa sobre a biodiversidade da Mata Atlântica do médio rio Doce.

A flora e a fauna dos rios Gualaxo do Norte e Doce nunca mais serão as mesmas."A perda de habitat é enorme, e o dano provocado no ecossistema é irreversível", explica o ambientalista Marcus Vinicius Polignano, coordenador do Projeto Manuelzão, que monitora a atividade econômica e seus impactos ambientais nas bacias hidrográficas dos principais rios mineiros pela Universidade Federal de Minas Gerais. "Qualquer ação a ser tomada agora é para mitigar os efeitos do impacto da lama." 

Segundo o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente), estima-se que foram lançados 50 milhões de m³ de rejeito de mineração (o suficiente para encher 20 mil piscinas olímpicas). A lama atingiu diretamente o Gualaxo do Norte, afluente do rio Doce. A enxurrada avança pela calha do Doce, que corta cidades de Minas Gerais e Espírito Santo até desaguar no oceano Atlântico.

O grande montante de lama com rejeitos de minério de ferro e manganês está bloqueando o curso natural dos rios. Com isso, a água corrente começa a buscar alternativas para fluir, e a escolha pode não levar a um final feliz.

O novo caminho pode levar os rios à extinção. "Existe a possibilidade de o rio perder força e se dividir em lagoas", diz Missagia. 

As lagoas também podem morrer. "Além dos minérios de ferro, a lama trouxe consigo esgoto, pesticidas e até agrotóxicos das terras por onde passou. Essas substâncias aceleram a produção de algas e bactérias, que rapidamente cobrirão as lagoas, formando um tapete verde que impede a fotossíntese dentro d'água. Se não há fotossíntese, não há oxigênio. Sem oxigênio os animais, vegetais e bactérias não têm chance de sobreviver", explica.

Fonte: http://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2015/11/13/rio-doce-precisa-de-acoes-para-garantir-sobrevida-e-tera-danos-por-decadas.htm


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

NADA DE ROUPAS PRETAS NO VERÃO PESSOAL!

O albedo foi o objeto de estudo central para esta intervenção, que finaliza o projeto intitulado "Consciência Socioambiental: Uma proposta para o Ensino de Geografia", integrando conteúdos relacionados à temática do Clima, da Vegetação e da Urbanização (a pedido da professora) em um único ato, sempre direcionados pela discussão da Geografia.
Partimos de uma experiência simples mas que quando aplicada à dinâmica da cidade é capaz de revelar muitas de nossas dúvidas, principalmente às que dizem respeito ao conforto térmico, que afeta nossas vidas de forma concreta.


Materiais utilizados: 2 copos de vidro cheios de areia seca, cartolina preta e branca para tampar cada um dos copos e 2 termômetros de fácil visualização acoplados às superfícies recém formadas.
Após a exposição ao sol por alguns minutos obtivemos os seguintes resultados: na superfície branca o marcador eleva-se de maneira lenta e gradual até atingir a temperatura de 36°C enquanto que a superfície de cor preta eleva-se rapidamente até atingir o máximo de temperatura proporcionado pelo termômetro em questão, 43°C. Em seguida retira-se a tampa dos copos a fim de medir a temperatura da areia, sendo que a que se encontrava no copo de superfície branca chegou a 34°C enquanto que a do pote de superfície preta atingiu 38°C.
Fica claro que a quantidade de calor refletido varia de acordo com a cor da superfície, as mais claras refletem mais do que absorvem enquanto que as mais escuras absorvem mais do que refletem. Portanto, nada de roupas pretas no verão em pessoal!

Partindo desta experiencia tornou-se possível explicações relacionadas ao clima urbano e uma apresentação rápida do caso de Viçosa/MG, dada a proximidade dos envolvidos com a cidade.
Brisa de montanha, verticalização, ilha de calor, comparação entre centro e periferia, cor das construções, o centro e a UFV dentre outros tópicos...


É interessante lembrar que a vegetação ou o reflorestamento surge em meio ao debate como uma alternativa à problemática do conforto térmico, entretanto como podemos visualizar na imagem abaixo seus respectivos albedos máximos (asfalto e árvore) são muito próximos (0,18 e 0,20). O que explica esta evidência?


Enquanto o asfalto absorve o calor e não o utiliza em mais nenhum outro processo a árvore e a vegetação em geral o transforma em fonte de energia no processo de fotossíntese, atuando como um verdadeiro ar condicionado natural.


 
                               

Enfim, obrigado a todos os envolvidos durante esse tempo de convivência, professores, colegas bolsistas e principalmente a toda essa molecada dos 1ºs anos 3, 5, 8 e 9 (e obviamente a escola como um todo) que dão trabalho (e muito!) mas também proporcionam grandes risadas e momentos de aprendizado.

Como mensagem final, dentro daquilo que comentamos durante as aulas, nunca se esqueçam de que tudo está conectado, homem e natureza compondo um todo chamado vida. E é dessa relação que vivemos, crescemos e sobrevivemos.

Obrigado pela paciência e audiência, até a próxima!

Referências Bibliográficas
OLIVEIRA, Gilvan Sampaio de. Mudanças Climáticas: ensino fundamental e médio. Brasília: MEC. SEB; MCT; AEB, 2009.






domingo, 15 de novembro de 2015

Mineração: Reflexões...

Imagem de satélite gerada no dia seguinte ao rompimento das barragens em Mariana, em Minas Gerais, mostra como ficou o distrito de Bento Rodrigues após a enxurrada de lama que arrasou o vilarejo de 620 habitantes na quinta-feira. As duas barragens de rejeito de mineração que se romperam desceram em direção às casas destruindo praticamente tudo o que estava no caminho. Onde havia residências, comércios, igrejas e ruas agora há lama, conforme o cartograma desenvolvido e publicado pelo Jornal Folha de São Paulo, a seguir.

O Município de Mariana – MG, localizado na região Central de Minas Gerais vem, nas últimas décadas, de acordo com Sobreira et. al. (2005) em seu trabalho: Cartografia e diagnóstico geoambiental aplicados ao ordenamento territorial do município de Mariana-MG, identifica problemas enfrentando decorrentes da precária gestão e utilização dos recursos do meio físico. Os autores afirmam que, a desconsideração das peculiaridades geológicas e geomorfológicas locais, a pressão exercida sobre o ambiente pelo crescimento acelerado da população e a fragilidade das políticas públicas de planejamento urbano ajudaram a configurar o atual quadro de degradação ambiental local. A complexidade dos componentes geológicos e geomorfológicos, associado às intervenções antrópicas variadas (ocupação de áreas inadequadas, desmatamentos, alteração dos cursos das drenagens, alterações na paisagem, poluição das águas fluviais por efluentes líquidos e pelo descarte irregular e difuso de resíduos sólidos domésticos e entulhos diversos) têm contribuído intensamente para o surgimento de problemas geoambientais, principalmente, nas áreas mais intensamente ocupadas.  Isso hoje se vê acontecendo. E se vivencia de maneira dramática as consequências da mineração, que no Estado de Minas Gerais, não é novidade.


Hoje, infelizmente, ainda  o distrito de Bento Rodrigues está sob a lama, conforme as imagens de satélite que você pode vê a seguir, publicado no Jornal Zero Hora de Porto Alegre. Mas, os impactos desse desastre não são apenas locais. A bacia do rio Doce em quase toda a sua extensão foi atingida pela lama que vazou.

A bacia do rio Doce, conforme a figura a seguir, demonstrar extensão do impacto. a no canto inferior esquerdo, você localiza Mariana, local do rompimento das barragens.




Os danos ambientais causados pela passagem da enxurrada de lama, provocada pelo rompimento de barragens da Samarco em Mariana (MG), são drásticos, devem se estender por ao menos duas décadas, e, mesmo assim, a restauração total é tida como impossível. 
A lama "cimentou" o bioma e pode até ter causado a extinção de animais e plantas que só existiam ali --a natureza local morreu soterrada.
Além disso, a bacia do rio Doce ficou vulnerável e terá de criar um novo curso.
É uma catástrofe, não há como dimensionar os danos. Creio que levaremos ao menos vinte anos para reverter parte do processo, restaurar será impossível
Beatriz Missagia, professora que pesquisou a conservação da biodiversidade da Mata Atlântica do médio rio Doce. A flora e a fauna dos rios Gualaxo do Norte e Doce nunca mais serão as mesmas."A perda de habitat é enorme, e o dano provocado no ecossistema é irreversível", explica o ambientalista Marcus Vinicius Polignano, coordenador do Projeto Manuelzão, que monitora a atividade econômica e seus impactos ambientais nas bacias hidrográficas dos principais rios mineiros pela Universidade Federal de Minas Gerais. "Qualquer ação a ser tomada agora é para mitigar os efeitos do impacto da lama."



Segundo o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente), estima-se que foram lançados 50 milhões de m³ de rejeito de mineração (o suficiente para encher 20 mil piscinas olímpicas). A lama atingiu diretamente o Gualaxo do Norte, afluente do rio Doce. A enxurrada avança pela calha do Doce, que corta cidades de Minas Gerais e Espírito Santo até desaguar no oceano Atlântico.
O grande montante de lama com rejeitos de minério de ferro e manganês está bloqueando o curso natural dos rios. Com isso, a água corrente começa a buscar alternativas para fluir, e a escolha pode não levar a um final feliz. O novo caminho pode levar os rios à extinção. "Existe a possibilidade de o rio perder força e se dividir em lagoas", diz Missagia.
As lagoas também podem morrer. "Além dos minérios de ferro, a lama trouxe consigo esgoto, pesticidas e até agrotóxicos das terras por onde passou. Essas substâncias aceleram a produção de algas e bactérias, que rapidamente cobrirão as lagoas, formando um tapete verde que impede a fotossíntese dentro d'água. Se não há fotossíntese, não há oxigênio. Sem oxigênio os animais, vegetais e bactérias não têm chance de sobreviver", explica.


sábado, 10 de outubro de 2015

O relevo de Teixeiras

No mês de Junho, dando sequência ao projeto "Aulas Práticas no Ensino de Geografia", foi realizado com as turmas do primeiro ano da Escola Estadual Dr. Mariano da Rocha um trabalho de campo próximo à escola, com o objetivo de visualizar e compreender um pouco mais sobre o relevo de Teixeiras e como este está presente no cotidiano dos alunos. Para auxiliá-los e dar início a discussão sobre o relevo de Teixeiras, foi elaborado um trajeto usando imagens do Google Earth, possibilitando aos estudantes se localizarem e terem uma visão espacial diferente, em relação a escola e aos locais próximos dali. Além disso, foi proposto algumas dicas de observações/reflexões para serem feitas ao longo do caminho até o ponto de observação. Durante a aula, foi possível observar/discutir qual é a forma de relevo da cidade, as cores e a profundidade do solo, a rocha de origem, como o relevo está presente no dia a dia dos alunos, a importância do tipo de relevo (mar-de-morros) de Teixeiras e até mesmo pensar no passado desse relevo, que um dia já foi um chapadão.
Anteriormente às aulas de campo, foi planejada e realizada uma aula expositiva (com auxílio de um slide) em que foi apresentada/discutida questões como: o que é relevo, os agentes (endógenos e exógenos) de relevo, o papel do intemperismo, da erosão, do transporte e da sedimentação para a formação do mesmo e, também, a diferença entre estrutura e forma do relevo. Ademais, foi usado na montagem do slide, fotos que representam as principais formas de relevo, como também um mapa sobre a classificação do relevo brasileiro.

Abaixo segue algumas fotos registradas pela Ana Honorio e Philipe Sek.




1º ano 5
























1º ano 3

1º ano 8

domingo, 27 de setembro de 2015

A diferença de Limite e Fronteira.

É importante destacar dois significados ou campos de referência diferentes assumidos no uso atual da expressão “limite”. Geralmente, em ambos os casos, a noção de limite carrega consigo algo do campo semântico no qual residem também os significados de extremidade, de descontinuidade e de término. Primeiramente, o uso do termo serve para referenciar mais diretamente uma marcação ou uma linha que resultam numa determinada configuração espacial, a partir da qual uma área, região ou território ganham seus contornos. Essa forma de emprego reforça os significados originais da palavra. “A palavra limite, de origem latina, foi criada para designar o fim daquilo que mantém coesa uma unidade político-territorial” (Machado, 1998). Nesse caso, circunscreve-se o lugar, a região ou o território e este ganha suas definições, ou mais especificamente seus limites, no contato com o exterior. É nesse sentido que a palavra assume um conteúdo propriamente espacial e passa a fazer parte do vocabulário dos geógrafos, militares e estadistas preocupados com a definição e edificação da soberania.
8Num outro universo de significação, a noção de limite pode ser aplicada para expressar a exaustão, a impossibilidade e o fim de um processo ou atividade. Remetendo-se mais especificamente, nesse caso, ao funcionamento de um corpo social ou natural no tempo, o uso da noção de limite faz referência à duração. Remetendo-se a suas próprias possibilidades intrínsecas, o uso da expressão limite aparece ligada mais ao funcionamento lógico. Dessa forma, a palavra limite também demarca sincronicamente o ponto exato de sua morte – morte no tempo – ou a impossibilidade estrutural do prosseguimento de determinada conjunção.
9De qualquer forma, em ambas as possibilidades de emprego da palavra limite, ela se volta para o interior do corpo ao qual faz menção. O limite diz respeito ao conjunto cercado entre os contornos que se remetem a uma identidade interna, e portanto ele é voltado para dentro, seja em relação ao território ou às possibilidades de definição e continuidade de determinado arranjo social – do que se entende por capitalismo, por exemplo. Ele não faz menção ao que “não é”, mas somente ao que termina ou encontra o seu fim num determinado ponto ou linha – no espaço, no tempo ou a partir de uma configuração interna (lógica).
10Diferente, no entanto, é o sentido que foi atribuído à noção de fronteira. “A fronteira está orientada ‘para fora’ (forças centrífugas), enquanto os limites estão orientados ‘para dentro’ (forças centrípetas)” (Machado, 1998). O sentido mais forte do termo, entretanto, e o campo no qual essa discussão assumiu um contorno conceitual mais preciso, seja no campo jurídico ou no da ciência geográfica, se remete às categorias espaciais e, mais especificamente, à fenômenos e definições que ganham existência no território. Isso se deveu em grande medida ao comportamento, à dinâmica e ao modus operandiinseparáveis do Estado territorial moderno. Nesse sentido, segundo Lia Osório Machado,
11“A gênese da noção de ‘fronteira’ é diferente e muito mais antiga daquela de limite internacional. A literatura considera o Império Romano e o Império da China como casos paradigmáticos na investigação das origens da concepção de fronteira e da evolução de seu significado no tempo. Os romanos, por exemplo, não tinham interesse em estabelecer limites aos seus domínios; no entanto, criaram um sistema administrativo e defensivo de fronteira (período dos Augustos), primordialmente para dificultar a expansão dos povos bárbaros nas fímbrias do Império” (Machado, sem data).
12Stephen Jones aponta com clareza para uma dinâmica, própria da fronteira, que se desenha em contraposição ao imobilismo sugerido pelos limites, tais como são concebidos atualmente pelo moderno sistema interestatal (ver Arrighi, 1996; e Machado, sem data). A confusão recorrente entre limites e fronteiras guarda armadilhas para o pensamento, nem sempre visíveis. A legalidade, presente na concepção atual de “limite”, a qual recorre o Estado e o moderno sistema interestatal para a definição territorial dos poderes concorrentes, foi extraída da esfera privada de regulação da propriedade, mais especificamente do Direito Civil romano. “A ager publicus ou domínio público não tinha limites; terminava em algum lugar mas o fim não era especificado por nenhuma linha legalmente relevante (a expressão usada era fines esse)” (Machado, sem data). Em sua concepção atual, disseminada pelo uso do léxico estatal-legalista, “o limite não está ligado à presença de gente, sendo uma abstração, generalizada na lei nacional” (Machado, 1998). A indefinição legal da situação de “fronteira”, em contrapartida, implica frequentemente num tipo de mobilidade congênita, contrariando as tendências imobilizadoras impostas pelo limite. Nesse sentido, o caráter extrovertido da situação de fronteira sugere uma ampliação das possibilidades, uma tendência à expansão (do corpo lógico, social ou ecológico) que ignora as definições impostas pelos limites internos, muitas vezes ultrapassando e desrespeitando as definições legais dos poderes jurídicos e regulamentadores do Estado, justamente enquanto a conformação introvertida do limite sugere a restrição e o contorno do universo em questão.
13“A palavra fronteira implica, historicamente, aquilo que sua etimologia sugere – o que está na frente. A origem histórica da palavra mostra que seu uso não estava associado a nenhum conceito legal e que não era um conceito essencialmente político ou intelectual. Nasceu como um fenômeno da vida social espontânea, indicando a margem do mundo habitado. Na medida que os padrões de civilização foram se desenvolvendo acima do nível de subsistência, as fronteiras entre ecúmenos tornaram-se lugares de comunicação e, por conseguinte, adquiriram um caráter político. Mesmo assim, não tinha a conotação de uma área ou zona que marcasse o limite definido ou fim de uma unidade política. Na realidade, o sentido de fronteira era não de fim mas do começo do Estado, o lugar para onde ele tendia a se expandir” (Machado, 1998).
14Nesse sentido a fronteira faz referência também ao que é externo, ao contrário do limite, que permanece voltado para o seu interior. Ela se projeta como zona de comunicação e incorporação mútua entre o mundo externo e o interior, mas, simultaneamente, dá ganho de causa ao segundo sobre o primeiro, representadas aí todas as forças expansionistas das sociedades dinâmicas de fronteira.
SANTOS, C. R. Sobre limites e fronteiras: a reprodutibilidade do estoque territorial para fins da acumulação capitalista. Revista consfins, São Paulo, n. 12, 2011.



quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Conheça o blog do Canta Cantos

  O Projeto
 


Canta Cantos é um projeto de divulgação do conhecimento geográfico. Criado por Lucas Mello seu objetivo é divulgar formas alternativas de se fazer Geografia.

Atualmente o Canta Cantos se estrutura como um projeto do tipo “guarda-chuva”. Isso quer dizer que pretendemos simultaneamente abrigar, receber e incentivar diferentes propostas cujas metas estejam relacionadas, principalmente, com a divulgação do conhecimento geográfico.

Outros objetivos do projeto são:
valorizar outras formas de saber, científicas ou não;
diminuir o desperdício de informação científica;
contribuir para a formação de outra idéia de Geografia.

Rádio, televisão e internet, música, fotografia e histórias em quadrinhos são alguns dos meios e instrumentos de comunicação usados no Canta Cantos. Navegue pelas páginas do blog e saiba mais sobre nossas iniciativas.
 
Acesse: http://www.cantacantos.com.br/blog/?page_id=7466
 
 

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Migração Humana

O projeto genográfico, realizado pela National Geografic Society, revela atravéz de coletas de DNA, as migrações humanas pré-históricas que povoaram todo o planeta. O DNA foi colhido na região de Astória, Queens, Nova York, uma das regiões com diversidade étnica do planeta. Atravéz desse DNA, eles construiram um mapa com a migração humana, como mostra o mapa a seguir.





       Com base neste mapa, pode-se dizer que a migração não é um fenômeno recente, sempre houve em diferentes períodos ao longo da história. Podemos citar a marcha dos judeus em busca da terra prometida; as invasões dos chamados povos do mar; as dos godos na Baixa Idade Média; as que no Novo Mundo marcaram a chegada de povos indígenas procedentes da Ásia. E, por suposto, não podem esquecer-se dos milhões de mulheres e homens que chegaram a diversos lugares desse continente, a partir do encontro iniciado por Cristóvão Colombo. Mas, apesar destes e outros grandes movimentos de povos, constatamos que atualmente no início do terceiro milênio de nossa era, novas formas de migrações de milhares de pessoas constituem uma realidade dramática em si mesma, e aos olhos de alguns parecem ameaçadoras.  
      Os principais cenários nos quais ocorrem atualmente as migrações são: Europa e Estados Unidos. Talvez Austrália e Nova Zelândia estejam também destinadas a ser. Em poucas palavras, pode-se afirmar que tais migrações ocorrem desde regiões abatidas economicamente para os países considerados florescentes e prósperos. 
        Na Europa os movimentos migratórios provêem tanto do norte da África ou dos países subsaarianos e também da antiga Europa do Leste e de outros países como do Equador e da Colômbia. Na América ocorre para os Estados Unidos a partir do México, do Caribe e de vários países da América Central e da América do Sul. Dramáticas são as notícias sobre os subsaarianos que cruzam por mar em frágeis embarcações ou saltando as barreiras levantadas para impedir sua entrada em lugares como Ceuta e Melilla. Trágicas também são as centenas de mortes de mexicanos e outros latino-americanos que se arriscam a entrar nos desertos do sudoeste dos Estados Unidos. 
        O que se deve fazer diante desta realidade? Os países ricos procuram fechar suas portas, isso é um fato. No caso dos europeus, eles parecem esquecer que, como potências colonialistas, exploraram até onde puderam os países de onde vêm atualmente os imigrantes. E no caso dos Estados Unidos, seus governantes parecem ignorar que sua grandeza se originou em grande parte nas intervenções e aproveitamentos perpetrados na América Latina. Não foram eles os que, numa guerra de conquista infame, arrebataram do México a metade de seu território? 
      Os países desenvolvidos recusam quase sempre dialogar sobre o tema da migração. Por um lado, necessitam da mão-de-obra barata. Por outro, temem a invasão de pessoas que lhes parecem indesejáveis. Esta tensão vai-se prolongar indefinidamente? Que possibilidades existem pelo menos de resolver este problema acutíssimo? 
      Os movimentos migratórios, muitas vezes erráticos, são de tal magnitude que todos os envolvidos devem participar na busca de possíveis respostas. A dizer todos os envolvidos devemos pensar nos governos e nos povos dos países emissores de migrantes e também dos países receptores. Seria uma quimera e uma violação dos direitos humanos que os países desenvolvidos tentassem obrigar os emissores a impedir pela força ou de qualquer outra forma que seus cidadãos se deslocassem livremente para onde quisessem. Mais que outra coisa deve ser analisada demoradamente qual é a causa principal desses deslocamentos. A resposta é dada por umas quantas palavras: o motivo fundamental é de caráter econômico.
    Os migrantes deixam tudo em seu país, visando participar do desenvolvimento que pensam que existe e encontrarão no país ao qual, por todos os meios, tentam penetrar. A África subsaariana sempre esteve atada à economia dos países europeus, durante os anos de colonialismo. Mas teve uma vinculação não só assimétrica, mas de exploração de seus recursos para proveito dos outros. Agora, os migrantes europeus outra relação. Procuram melhorar suas condições de vida e as de seus familiares, prometendo-lhes enviar remessas de uma parte do dinheiro que ganharem. 
       Mas será que todos ou a maioria dos migrantes atingem seus propósitos? As dificuldades que enfrentam, desde o momento em que deixam sua terra, são enormes, e em certas ocasiões as adversidades significam a perda de suas vidas. Além disso, quando conseguem entrar nos países receptores, estes com freqüência os expulsam de volta aos seus lugares de origem.

Por estas e outras razões devemos nos perguntar: podemos participar, para o nosso próprio bem, do desenvolvimento dos prósperos e poderosos? Penso que pode haver um meio de solucionar este problema e vou esboçá-lo. Se os governos emissores e receptores se reúnem e discutem a criação de centros de produção nos países emissores, financiando tais centros com recursos multinacionais, poderá vislumbrar-se um caminho de associação e participação na economia dos desenvolvidos. Não estou pensando na instalação de um maior número de fábricas maquiadoras, montadoras ou de acabamento de produtos manufaturados nos países desenvolvidos. Penso na criação de núcleos de produção organizados com participação econômica de emissores e receptores. Os emissores podem proporcionar o terreno e determinadas matérias-primas, assim como a mão-de-obra. Os desenvolvidos contribuirão com os recursos de capital necessários.

Em um princípio os diretores virão dos desenvolvidos, mas com o tempo deverão ser capacitados outros do país onde for estabelecido o centro de trabalho. Vigiar-se-á que a mão-de-obra tenha condições aceitáveis de trabalho e salários justos. Ademais tentar-se-á dar-lhes participação nos lucros da empresa. Esta produzirá bens e outros insumos requeridos, principalmente, pelos antigos receptores. Aqueles que eram forçados a migrar para participar da economia dos países desenvolvidos poderão melhorar sua situação econômica sem ter que abandonar sua terra. Sua melhoria econômica mudará suas condições de vida. A antiga e desgarrada assimetria entre emissores e receptores será atenuada.

Se o projeto se concretizar, os movimentos migratórios diminuirão. Os desenvolvidos não ficarão agoniados com a entrada de milhares de pessoas que tentam entrar em seu território, inclusive com violência e começarão a ter outras formas de relacionamento mais justas e humanas com os povos que durante séculos foram explorados. Será que isso poderá converter-se em uma nova forma de globalização econômica positiva? As pessoas que trabalharem nesses centros não abandonarão seu país e seus costumes, melhorarão suas vidas em sua própria terra. Isso é uma utopia? Será que não vale a pena os economistas ponderarem propostas como esta e os políticos considerarem sua viabilidade? O que realmente repugna é pensar que uns poucos tenham o direito a viver bem e na opulência, enquanto que as maiorias vegetam na pobreza e muitas vezes também na miséria.

Miguel León-Portilla é antropólogo e historiador mexicano